Jaime, October 2005

A maior biblioteca mundial

Jaime: A Internet, hoje em dia a maior biblioteca mundial é a Internet, hoje ela dispõe de todos os recursos imaginários de dúvidas, eu já resolvi muitas situações.

Jorge, October 2005

Migrou pra software

Jorge: Então, quando abriu a Reserva de Mercado [unclear], eles [companies] não tinha como competir com estrangeiros. […] Então a gente, engenheiros eletrônicos, nos percebemos que a gente tava com nosso horizonte fechando. A eletrônica não tinha muito mais pra onde avançar no Brasil. Então, nós tínhamos vários centros de microeletrônica no Brasil, e hoje em dia só tem um — o único cara que foi persistente, eles continuaram, tá. Eles são um tipo de reserva intelectual nessa área. […] Só no Rio Grande do Sul. […] Eles por exemplo tem um chip Java. […] Mas a gente aí migrou pra software.

Edmundo, October 2005

80% em Inglês

Edmundo: Eu uso Google… Por exemplo, eu tô com uma duvida de ler um arquivo binário. Eu esqueci, como é que eu faço? Ou eu perco tempo fazendo uma classezinha aqui dentro da [company name] pra ler o arquivo binário, ou dou um searchjava binary file”. Aí eu vejo mais ou menos como o pessoal fez o código, e faço o meu.

Yuri: E você sempre usa palavras ingleses?

Edmundo: Sempre. Palavra inglês. Ó… Perdão, perdão. 80% em inglês, 20% em português. E te falo por quê. Por que os 20% em português? Porque aqui no Brasil, nós temos uma das maiores comunidades de Java do mundo, que é a comunidade Sou Java, que fica em São Paulo. E 80% porque no mundo inteiro, independente de comunidade Java, chama JUG, Java User Group, que independente de comunidades, tem programador Java pelo mundo inteiro, então é muito mais fácil você encontrar uma palavra que você post em inglês do que em português.

Yuri: Então, às vezes você usa inglês, às vezes português?

Edmundo: 20% português, 80% inglês.

Yuri: Mas como você escolhe?

Edmundo: Boa pergunta. Como eu escolho isso? [Pause.] Quer saber mesmo? Quer saber mesmo? Quando eu tô cansado de escrever em inglês, aí eu boto em português. [Chuckle.] Tô cansado escrever inglês. [Chuckle.] Não existe nenhum padrão, “Ah, agora eu vou fazer em português”. Não, não. Não existe esse padrão.

Yuri: Tá bom, então quando você tá cansado?

Edmundo: Quando tô cansado. [Laughs.] Quando eu não quero mais ler em inglês, não quero ler nada, não quero escrever inglês.

Yuri: Ler em inglês é mais difícil pra você?

Edmundo: [Pause.] Com certeza, porque não é a minha língua-mãe, entendeu? Não é a minha língua-mãe. É tipo você, mesmo que você morando cinco anos já nos Estados Unidos, três anos nos Estados Unidos. Cinco anos você morou nos Estados Unidos, né?

Yuri: Dez.

Edmundo: Dez anos, né? É dez anos, pô… Ainda assim, ler em russo é muito mais fácil do que ler em inglês.

Bruno, April 2007

Aprendi pelo código

Bruno: Aprendi pelo código.

Author: Vendo o código já escrito?

Bruno: Já escrito. Pelo Luiz Henrique, pelo Roberto, e por outras pessoas que começaram antes de mim. Provavelmente vi código do Rodrigo [pseudonym], provavelmente eu vi código de outras pessoas. […] Como {text:s} a Tecgraf no inicio era pequena as pessoas ficavam no mesmo laboratório. Então por exemplo, quando eu fiz doutorado aqui, eu sentava numa máquina, do meu lado tava o Luiz Henrique que trabalhava aqui na época… Ele tinha acabado o doutorado mas ainda ficava por aqui. Quando ele terminou o doutorado foi que eu comecei. O Rodrigo [pseudonym] tava terminando a graduação, sentava do meu outro lado. Entendeu? Então assim, você tomava contato. A minha tese por exemplo eu fiz toda usando C. Então quando eu resolvi migrar, tomar contato com Lua é porque eu tava fazendo um troço, escrevia, sei lá, duas paginas de código, eu olhava pro lado, o cara do meu lado fazia isso em, sei lá, um quarto de pagina. “Pô, peraí, como é que você fez isso… tão simples?” Então esse contato dentro de laboratório é que as pessoas aprendiam. Entendeu? Hoje em dia a gente cresceu muito. Nao existe mais um laboratório. São pequenas baias e cada baia tem seu projeto. Então se cê tá num projeto que não usa Lua, cê não vai ter essa facilidade de ter o contato e aprender desse jeito. Mas naquela época era quase que natural.

Carlos, April 2007

Percebi que existia um movimento

Carlos: Então, eu sabia de Lua, mas… Sabia de alguns sucessos de Lua, mas também… Sabe como… sabe aqui e ali. Como, o professor ganhou um prêmio… Mas quando eu assumi aqui essa função de planejamento, olhando o potencial aqui da universidade, o que ela tem de …, percebi que existia um movimento bastante grande até utilizando a linguagem Lua.

Evangelização

Carlos: A partir de Chico conhecia e tinha contato conversando com Rodrigo Miranda, que é uma pessoa que tem um papel importante também […] no pensar de estratégia de evolução de Lua. […] E ouvindo de Chico, que também tinha essa posição, eu tinha oportunidade pra levar isso pra administração da universidade, que… A universidade estava percebendo pouco a importância que a Lua tava ter no contexto internacional. E membros de administração da universidade concordaram com isso, né. E eu mencionei que deveria tentar ver quais eram maneiras de a gente reforçar essa associação — entre Lua e a PUC. […] O que a gente chamou de “evangelização”, você tem que ganhar o coração das pessoas, a mente das pessoas.

Em benefício de todos

Carlos: A percepção de que se nós conseguirmos valorizar esta linguagem, ela vai servir em beneficio de todos, do Rio de Janeiro, e do Brasil. Porque sempre um país periférico tem… Sempre… “Ih, não, isso é uma coisa só de brasileiro.” Você compra um produto no Brasil, se dar defeito, você diz: “Ah, é brasileiro.” Cê compra um equipamento importado, um automóvel, você diz: “Ah, olha que maravilha.” Quando dá defeito, a pessoa quase não fala nada. Mas se você compra um produto Brasileiro, você diz: “É porque é brasileiro”. E isso vale pro software também, né. Apesar da nossa destacada posição na área de software bancário, na área financeira, e tal… Mas o Brasil é pouco agressivo nessa questão de off-shore, não?

Programadores de Lua

E também o que eu tenho colocado, né, de talvez a necessidade de a gente fazer um esforço de buscar recursos, de trazer agências financiadoras aqui, dizer: “Vamos formar programadores de Lua.”

Parceiros de peso

Carlos: E disso também começar a procurar grandes parceiros, né. Porque se Lua tem uma projeção no nível internacional, se ela tem uma serie de qualidades que a comunidade reconhece, por que não atrair parceiros de peso, grandes players internacionais, como Softnet, IBM, para conversarmos sobre esse assunto?

Uma proposta

Carlos: …onde uma das propostas que nós vamos colocar pra ele pra agenda de desenvolvimento seria a questão de tecnologia de informação, mas centrado em Lua, como diferencial brasileiro pra off-shore. Java pode ser na China, na Índia… A Índia tem a facilidade da língua, que aqui no Brasil… não temos talvez isso. Mas sem dúvida nenhuma Lua é um diferencial, onde você tem condições de formar uma massa crítica rapidamente, se nós tivermos uma articulação. E é isso que, nessa vinda do Secretário, nós vamos convidar os órgãos financiadores da área de ciência e tecnologia, o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social, pra virem aqui, e vamos trazer empresas que já estão em processo de catequese… [laughs] pra [talvez?] falarem sobre isso e ter o seu interesse… Ou seja, você de uma certa maneira vai sublinhando e certificando que isto é um produto brasileiro, open source, e, ainda, dessa criatividade aqui no Rio de Janeiro.

Felipe, April 2007

Deixado cada vez mais de lado

Felipe: Então, de cara a gente já saiu um pouco do foco de investir no InterJX, investir em integração e isso foi só aumentando, e, com o passar do tempo, a gente sempre foi, cada vez mais trabalhando com o desenvolvimento de aplicações web, né, com o desenvolvimento de soluções sob encomenda por os clientes, né? E isso fez InterJX uma coisa deixada cada vez mais de lado.

Vamo começar a faturar

Felipe: Começou bem no começo, porque foi um contato de Eduardo. Um amigo dele que trabalhava na Petrobras tava precisando uma empresa que pudesse dar manutenção nesse contrato, na Intranet no caso, e aí perguntou se a gente estava disponível e tal. E a gente “Ó, lógico, vamo começar a faturar e entrar na Petrobras, que é uma grande empresa…” E a gente começou. Aí cobramos baratinho pra entrar e começar a gerar alguma receita.

Nem existiria

Felipe: Acho que se a gente não tivesse pego aquele projeto acho que a Alta nem existiria hoje.

Fechou a caixão

Felipe: E chegou um momento também que a gente consegui uma parceria com uma empresa grande, multinacional, que é “EIT.” A gente consegui uma parceria com eles e eles são uma das principais empresas que vendem software de integração. Então a gente priorizou aprender a plataforma deles, e tentar gerar serviços em cima da plataforma deles. E aí acho que foi que fechou a caixão de InterJX. Nunca trabalhava mais com InterJX. Foi o momento quando a gente priorizou trabalhar com uma tecnologia que é líder de mercado. Que era a tecnologia de EIT. […] Lá tem desenvolvedores, no Estados Unidos, Indianos, tudo mundo evoluindo o sistema. A gente aqui, nos não temos ninguém. [EIT] ‘tava anos luz a frente.

Cássio, April 2007

Uma brincadeira entre amigos

Cássio: Na verdade não foi um projeto, foi uma brincadeira entre amigos, digamos assim. Que… A gente usava Lua, na verdade, pra… O interesse na época era pegar dados de forms em HTML, né, porque passa por um CGI, né? Então, na época a intenção não era nem gerar as páginas efetivamente, nesse começo, lá no começo. Era eu submeter um, digamos assim, tem um form escrito em HTML normal e aí botar, este programa que a gente chamou na época de LuaForm pra ser o script CGI que vai responder… que ia receber, digamos assim, o nosso request. A aí o interesse maior era em conseguir pegar os parâmetros, que era uma coisa complexa na época, porque tinha que programar em C para extrair os parâmetros, né, que vinham no request, no formulário. Então, originalmente foi pra isso, pra basicamente você escrever… pegar o resultado do form e aí produzir…

Yuri: Pra depois passarem estes parâmetros pra alguma coisa escrita em C que geria a página mesma…

Cássio: É. E daí uma coisa puxa a outra, né? Dado que você já tenha os dados no ambiente Lua com os parâmetros bonitinho, porque que eu não faço um… eu podia simplesmente fazer um print, né? E era como se fosse a resposta pra aquele form. Então ele vai escrever uma página como se eu escrevesse no print embaixo. Então daí seria mais fácil ainda porque ao invés de eu escrever print abre colchete H1 fecha, era mais fácil ter uma outra coisa que gerasse essas strings pra mim. Aí provavelmente daí deu origem ao CGILua…

Yuri: Isso começou como brincadeira entre amigos em que sentido?

Cássio: Na época a gente estava aqui fazendo o mestrado, ou graduação, não me lembro exatamente agora, e estava começando a surgir, pelo menos aqui no Brasil, no meio acadêmico essa coisa de geração de páginas. As pessoas usavam um editor “careta” pra escrever uma página, não tinha muito essa coisa desse conteúdo dinâmico…

Yuri: Editor de que?

Cássio: De texto pra escrever um HTML simples, né? E justamente por as coisas serem estáticas quando você fazia um form, você precisava escrever um programa. Então: “Como é que a gente faz isso de uma maneira melhorzinha, né, pra pegar esses parâmetros?” Daí você podendo fazer print, já faz a resposta da pagina. Então as coisas acabaram, tipo assim, dando origem aí ao CGILua. Mas aí já foram outras pessoas que pegaram e transformaram num produto e até numa tese.

Yuri: O código começou com você e algumas outras pessoas que estavam fazendo…

Cássio: Aqui na PUC, no laboratório.

Yuri: Não tinha nada com Tecgraf?

Cássio: Era dentro do laboratório, dentro do ambiente do Tecgraf. Digamos assim, todos dentro do laboratório naquela época estavam fazendo mestrado, doutorado ou eram alunos. Então, dentro deste ambiente a gente produziu essa brincadeira. Na época se chamava LuaForm. Justamente porque o interesse era só em dar um tratamento de forms de HTML.

Yuri: A idéia era usar ele pra fazer algum tipo de site, ou só…

Cássio: Só pra aprender mesmo, só pra descobrir como as coisas funcionavam na época.

Antônio, May 2007

Os comentários nossos são em português

Yuri: Então, voltar pra parte mais antiga. Quando você começou a usar Lua você já sabia inglês?

Antônio: Sabia. Sim, sabia ler bem e falava… razoável. Sim.

Yuri: Como foi escrito…? Eu sei que a versão primeira do Lua até o código do SOL mesmo foi escrito em inglês, com comentários em inglês…

Antônio: Sim, até hoje a gente faz isso. Aqui no nosso grupo, também. Mesmo não sendo Lua, a gente tenta… Não, desculpe, os comentários são em português, claro, né. Mas os nomes das variáveis, tudo a gente tenta fazer em inglês mas os comentários nossos são em português… Lua, não…

Uso muito mais globalizado

Yuri: Você disse que os comentários são em português, “claro.” Mas eu tenho a impressão que isto não é óbvio. Não estou dizendo que não é comum, mas não é óbvio. Eu acho que, às vezes, as pessoas até usam comentários em inglês.

Antônio: Não, não. A gente — é em português. Até porque… No caso de Lua eu acho até perfeitamente compreensível que seja em inglês, ela nasceu pra voar, para outros… tem um uso muito mais globalizado do que as nossas aplicações. A gente, na verdade, nem incentiva e nem quer que as pessoas aqui tentem fazer os comentários em inglês, porque a maioria não é fluente em inglês, então ia ficar um inglês capenga… Nossos produtos não são… O código fonte não é feito para exportação, não é aberto. O que a gente faz não é aberto. O código que a gente faz para a Petrobras é propriedade deles e eles não querem que tenha que tambem… saber inglês pra ler o nosso código…Então, sob vários aspectos, nas aplicações, a gente não comenta em inglês. Os nomes das variáveis até são, pro código; você lê ele mais ou menos em inglês. Mas, os comentários…

Yuri: Mas, então, por que os nomes de variáveis são em inglês?

Antônio: Isto é uma questão que a gente vem debatendo, mas, a gente acha que fica… por exemplo, a sintaxe do código mesmo para você ler fica esquisito, né. A gente estranha um pouco misturar nesse aspecto, mas, os comentários, não. É, agora que você falou… para mim é óbvio mas, se você olhar em retrospecto, talvez não, né? Por que é natural comentar-se em português e o resto não, né?

Em outros contextos, em outros lugares

Yuri: Alguém achava isso estranho, não?

Antônio: Não, não. É… Assim… Acho que isso não é questionável, quer dizer, acho que todo mundo meio que entende que Lua… A idéia é que Lua fosse usada, realmente, em outros contextos, em outros lugares. Tivesse uma… abrangência, né… um alcance maior do que Brasil, o Rio e a sede. Eu acho natural Lua ser assim.

Vou botar no LuaForge

Yuri: Mas, na época não era, né? Na época ela era um projeto…

Antônio: Sim, ninguém poderia pensar o estouro, o sucesso, que Lua ia ter. A aceitação para a indústria de games, etc. Mas, talvez eles, o Roberto e o Luis Henrique, tivessem essa idéia, eu não sei. Eu, por exemplo, esse filtro de spam que eu fiz, todo ele é em inglês. Comentário é em inglês. Porque, no meu caso, por exemplo, eu pensava ah, sei lá, um dia, eu vou botar no LuaForge, sei lá, e alguém pode querer baixar. Eu gosto dessa, da idéia do “open source,” de “many eyes,” etc… todo mundo tar olhando… Então, eu acho que quando você se propõe a fazer uma aplicação ao “open source” você deve falar a língua mais abrangente possível; mais, mais comum possível, talvez. Mais facilmente entendida, né? No caso das nossas aplicações não, nós não… no Tecgraf não, na verdade a gente não quer que isto aconteça.

Um software nacional

Yuri: Mas não é questão de que Lua é uma linguagem brasileira ou não sei o que…

Antônio: Tem um pouco disso, também. É porque eu conheço as pessoas que fizeram… Eu queria ajudar a promover de alguma forma. […] Mas tem um pouco disso, sim, sem dúvida, de orgulho, de saber de onde veio, de conhecer, de promover um software nacional, isso tem. Sem dúvida.

Rodrigo, May 2007

Queria fazer uma plataforma web

Rodrigo: Eu queria fazer uma plataforma web pra Lua. Mas eu não tinha capacidade técnica de fazer. Então, eu tive que pensar assim: “Como é que eu vou estruturar as coisas pra conseguir juntar um monte de gente e aí fazer uma plataforma web?” A primeira tentativa foi [Nas Nuvens], quando [Nas Nuvens] apareceu, eu falei assim: “Olha, esse é um lugar onde eu posso fazer uma plataforma web. Porque eles querem usar Lua.” Já é bom, mas não funcionou…

Yuri: Porque não?

Rodrigo: Porque o nível dos desenvolvedores não era o nível de desenvolvedores de plataforma. São níveis diferentes. Desenvolvedores de aplicações numa plataforma tem algumas expectativas. E se você quer fazer a plataforma em si você tem que saber muito mais do sistema operacional, muito mais da parte de C e de integração com outras coisas pra fazer os conectores. Isso dá mais trabalho.

Duas moedas

Rodrigo: Eu percebi que numa lista de um projeto livre existem duas moedas de troca: crédito e respeito. E existe um bem palpável que é source. Então, você tem duas moedas abstratas e uma concreta; eu posso fornecer source pra uma comunidade e com isso ganhar respeito ou alguém pode me fornecer source e eu pagar em crédito ou… […] Se eu dou crédito pra uma pessoa, ela tem respeito, o que eu estou tentando agora é ganhar respeito.

Meio patronizing

Rodrigo: Porque isso é uma coisa que eu já reparei na lista de Lua. Se alguem faz uma pergunta, ou se eu faço uma pergunta, a minha pergunta transparece com um grau de ignorância muito grande. Porque eu sou ignorante. Porque eu não sei uma quantidade enorme de coisas. Eu não sei como funciona o Makefile, eu não sei como funciona o sistema de build, não sei como [unclear]… Tem muita coisa de Linux que eu não sei. Então isso aparece na pergunta. E a resposta das pessoas tende a ser educada mas é… meio patronizing. Meio tipo, “Olha, ah… Então faz aí isso aqui. Vai lá descobre como faz isso.” E quando eu dou uma resposta mais técnica, eu sinto que isso gera uma conexão com a pessoa do outro lado. A pessoa fala assim: “Ah, eu não estou falando com um gerente burro. Eu estou falando com alguém que, pelo menos, vai entender o que eu estou pensando.” Então você sente na resposta uma vibração diferente, que eu imagino que seja o que a pessoa sente quando vê a minha resposta.

Yuri: No final você acha que isso é importante pro projeto?

Rodrigo: Sim, claro. Mas é importante pra mim, eu estou fazendo por mim porque eu quero aprender a mexer em Linux, Windows e OSX.

Yuri: Só pra saber ou pra saber como obter respeito nesse tipo de lista?

Rodrigo: Não, só pra eu saber fazer o Kepler. Eu estava numa situação muito delicada onde eu tinha uma plataforma que eu tinha bolado, a idéia da plataforma era minha, mas eu não sabia usar porque eu não conhecia todos…

Yuri: Não sabia fazer?

Rodrigo: Mesmo usar. Os detalhes internos eu não sabia. “Como funciona o LuaExpat?” Eu não sei. Eu nunca parei pra olhar. Eu falei: “Eu preciso de um LuaExpat.” E aí apareceu. Ah, bom, essa parte já tem. “Agora eu preciso de um LuaZip.” Apareceu. Agora preciso de um MD5. Apareceu. Então, eu já tenho todos os quadradinhos que eu preciso. Tá bom.

Silvio, May 2007

Sem se incomodar com a plataforma

Silvio: Isso aconteceu, de uns seis anos pra cá, que a gente começou a aumentar significamente a quantidade de projetos em Java. […] Em 2001 a gente teve uma demanda do nosso cliente… De “Ah, a gente queria fazer um sistema com essas, essas, e essas características. E eu achei que era mais interessante usar Java do que… Porque você tem uma parte… É aquele ditadinho: “Pra quem tem martelo, tudo é prego.” A gente tem que ter uma caixa de ferramentas e saber usar cada ferramenta na situação adequada, né? Lua é uma excelente ferramenta, mas não é a ferramenta mais adequada pra tudo. Ninguém espera que seja. E eu acho pro trabalho que a gente tinha em mãos, o ideal era uma mistura. A gente realmente fez isso, a gente usou Java pra construir o cliente, que a gente queria rodar pela intranet, etc, etc, no navegador. Na época não existia JavaWebStart, mas existia já o plugin pra Applet. Então a gente conseguia, por exemplo, rodar na intranet, uma aplicação com uma interface gráfica super-legal, sem se incomodar com a plataforma lá do cliente, do usuário. Então a gente optou por fazer o cliente e o servidor em Java, mas a parte que está distribuída nas máquinas, que precisa mais dessa coisa operacional, a gente implementou em Lua. A gente fez esse corte. Só o que é que acontece é que a parte do servidor e do cliente demanda muito mais implementação do que a outra, por isso que hoje o projeto é prioritariamente Java.

Lua 3.2 e Lua 4

Silvio: Eu acho que a gente pulou o 4.0. Não tenho certeza. Se quiser até te mando isso depois, se isso for importante pra você.

Yuri: Tá bom. Eu estou perguntando porque eu já ouvi as pessoas falando que tinham algumas dificuldades no Lua 3.2 e Lua 4 e que algumas pessoas naquele momento desistiram.

Silvio: É verdade. Basicamente porque a API de comunicação entre C e Lua mudou drasticamente, né. Foi em 4, eu acho, que foi introduzida a máquina de pilha na comunicação, no bind de Lua com C. E aí quem tinha muito código C chamando Lua, teve que fazer muitas mudanças. E até teve gente que realmente reclamou, “A, pô, chato, mudar,” não sei o que. Mas eu não tenho essa visão, acho que faz parte, acho que a gente tem que andar pra frente. Lua tem que evoluir, a gente não vai parar, estagnar o Lua ou ficar numa interface que a gente entende que é pior, só porque tem gente que tá usando e tá com preguiça de mudar as aplicações. Não faz sentido. Estagnar por estagnar… Quem não quiser evoluir congela lá na versão 3.2 e fica com ela o resto da vida, que ela vai funcionar bem, obrigado.

O outro motivo

Silvio: Eu continuo usando Lua nos projetos TecGraf, então tem um aspecto prático aí de que conforme as coisas acontecem em Lua eu tenho interesse. […] Então eu quero tar a par de tudo o que tá acontecendo porque pode me afetar no projeto. O outro motivo é porque eu adoro isso, eu sou um entusiasta da linguagem, adoro Lua, acho um barato e gosto de ver as discussões, aí é mais por gosto mesmo. Então tem esses dois aspectos.

Yuri: Barato em que sentido?

Silvio: Uma coisa muito legal, “cool.” Em inglês “cool.”

Yuri: […] Você pode me falar um pouco mais sobre essa parte de adorar Lua, o que significa?

Silvio: Sim, porque eu acompanhei Lua desde o início do desenvolvimento, né. O Roberto foi o meu orientador tanto mestrado… Quer diser graduação, mestrado e doutorado. Eu tenho um vínculo de amizade com o Roberto, a gente vira e mexe, vai almoçar juntos, ele me conta o que tá acontecendo, não sei o que. Então eu vivo muito esse mundo da linguagem e eu gosto sim, de tar a par, de ver o que está acontecendo, conversar com o Roberto, trocar idéia. Então assim. É uma coisa que eu gosto, eu gosto mesmo, por causa das pessoas envolvidas. É um trabalho que eu acho fantástico.

Por puro preconceito

Silvio: Eu acho muito legal o Roberto conseguir… Tem o aspecto aí… É assim. Eu já vi muito preconceito contra a linguagem. É impressionante como isso acontece. Assim. A gente tem um cliente. Eu já vi cliente nosso, uma pessoa dentro de uma empresa dizer o seguinte: “A não, eu tô aqui na dúvida entre usar Lua ou usar essa ferramenta da Microsoft. Mas acho que vou voltar da Microsoft. Porque se usar Lua e der errado, meu chefe vai dizer que eu sou maluco. Se eu usar da Microsoft e der errado, não tem problema porque isso acontece todo dia.” É ridículo alguém pensar assim. Eu acho assim… Eu sinto vergonha de ver alguém falando um negócio desse tando aqui, quer dizer… Ao invés de… podendo usar… Ao invés de incentivar um trabalho que é totalmente desenvolvido no país, o cara não incentivar, deliberadamente por puro preconceito… Eu acho uma coisa totalmente absurda. Então assim… Essas coisas me motivam muito a acompanhar o Lua, tentar usar. Porque eu vejo que a lista, a maior parte das pessoas na lista não são do Brasil, a maior parte são estrangeiros. Eu vi que Lua teve que fazer sucesso lá fora, pra poder ser bem aceito aqui dentro. [Pause.] Ou seja, é um projeto que eu acho fantástico, que eu gosto muito. Vejo a luta que é do Roberto de fazer Lua funcionar, vejo o trabalho que ele tem. Lua reflete, no fundo, essa genialidade dele. Que acho que Roberto é um cara muito bom… [Pause.] Então, por esses aspectos todos, eu gosto muito da linguagem e tenho prazer em acompanhar o que tá acontecendo. Por isso que eu não saio da lista, continuo a ler. Por mais que eu não fale nada, eu continuo na lista vendo o que tá acontecendo.

Pedro, May 2007

Curso de Inglês

Pedro: Porque o que eu fiz, eu não fiz [minha graduação] em quatro anos. Eu fiz em quatro anos e meio, porque eu decidi reduzir a carga para estudar inglês. Então reduzi a carga para estudar inglês, pra estudar inglês um ano e meio, no curso comercial de inglês. If you want we can talk. [Laughs.] O meu inglês ainda tá… ainda tá… Eu ouço melhor do que falo. […]

Yuri: E como você aprendeu? Pedro: Curso de inglês. Curso semi-intensivo de um ano e oito meses, que tô fazendo. Continuo lá fazendo. Então reduzi minha carga na faculdade no sexto período. Há oito períodos. Reduzi no sexto, planejando ficar um período a mais, um semestre a mais. Porque no sexto período parei: se eu não estudar inglês, não vou poder fazer mestrado. No […] curso pra poder fazer mestrado. Porque com mestrados aqui [esperam] que a pessoa já seja fluente… fluente não, mais capacitado em leitura. […] Deve saber ler e escrever inglês. […]

Yuri: E foi bom? Pedro: Pra mim foi bom, funcionou. Yuri: Antes desse curso você não sabia… Pedro: …nada de inglês. Yuri: Até não sabia ler? Pedro: Nada. Nem ler. A gente tem inglês aqui na escola fundamental, só que é muito pobre. É inglês que é baseado em tradução. E aí você não aprende nunca. Eu sabia muito pouco. De leitura muito pouco. Posso dizer que hoje eu consigo ler qualquer artigo em inglês. […]

Pedro: Segundo semestre de 2005, né. Foi mais ou menos mesma época que eu comecei mexer com Rails, estudar inglês, e aí já tava melhorando meu inglês. O curso é muito bom, o curso que eu fiz. Em seis meses eu já tava lendo bem. Não tava falando também, mas tava lendo bem.

Jason, June 2007

TK 85

Jason: Eu mexo com computação desde os oito, oito anos de idade. Eu comecei trabalhando com pequenos computadores de lógica Sinclair que no Brasil eram comercializados com o nome de TK 85, TK 82. Eram computadores bem pequenininhos e meu pai comprou um desses pra mim e eu desenvolvia joguinhos neles e os meus primos, da mesma idade que eu, jogavam estes joguinhos e sugeriam mudanças que eu ia lá e implementava. Eu aprendi a linguagem BASIC no manual do próprio computador, né, que vinha com a linguagem BASIC nativa, e eu aprendi lá, mais ou menos sozinho mesmo, e fiquei muito interessado. Mas não persegui muito mais isso não porque, na verdade, eu queria ser escritor, escrever ficção. Eu sempre tive interesses muito diversificados em várias áreas, né? Só anos depois, quando… Nos anos 80 a educação teve uma série de problemas com governo naquela época, então houve muitas greves, tinha um período de alguns anos. Tinha repetidas greves que deixavam os anos letivos com lacunas às vezes de quatro meses, assim. Então a gente começava a estudar e ficava quatro meses parados e só depois ia concluir. Numa dessas o meu pai achou importante me colocar em algum tipo de curso para eu não perder um ano sem estudar. E aí me colocou num curso de informática. […] Aí no curso de informática eu fui apresentado a outras tecnologias, bancos de dados, essas coisas. Aí finalmente eu me interessei pela carreira. Pra ser mais preciso, eu acho que foi 1987. […]

Meu pai

Jason: Meu pai era engenheiro eletrônico, mas ele nunca trabalhou como engenheiro eletrônico. Ele é formado em Engenharia Eletrônica, mas ele trabalha dando aula de eletrônica. Quando eu era criança ele trabalhava consertando equipamentos eletrônicos, ele consertava televisão, rádio, essas coisas assim. E minha mãe era professora. Na verdade meu pai não tinha um emprego fixo quando eu era criança, ele trabalhava fazendo trabalhos esporádicos. E a minha mãe sempre foi professora e aí ela ganhava pouco… […] A gente sempre teve pouco dinheiro, eu não sei como é que foi a sorte de ter podido comprar esse pequeno computadorzinho.

Yuri: E como?

Jason: Não sei, ele [o pai] deve ter feito algum trabalho, lá que deu algum dinheiro, houve mais na época e acabou conseguindo.

Yuri: Ele comprou esse computador pra você? Ele mesmo não usava?

Jason: Não, ele não usava. Era um computador de recursos muito limitados né?

Yuri: Mas foi você que pediu ou…?

Jason: Não, ele deve ter achado interessante e comprou. Ele é muito interessado em informática até hoje, mas ele realmente não é da área.

Uma época complicada

Jason: Era uma época complicada, eu me lembro, porque obter informação era difícil, você descobrir como se fazia uma coisa, você ficar fazendo tentativa e erro. Os livros eram caros e difíceis de encontrar, você precisava encomendar livros importados e você ia nas livrarias, pedia o catálogo, o cara te mostrava o livro “Então, existe um livro sobre isso?” “Existe” “Então, traz pra mim” Aí demorava meses até chegar e você ir lá e comprar e eram caros às pampas. Então, a solução, normalmente, era conseguir os programas de alguma maneira, alguém que tinha, copiava e tal e aí você ia lá e tentava, testando ele e descobria como é que ele funcionava. E aí usava os recursos dele, aí de repente descobria alguém que já tinha feito uma coisa mais avançada do que aquilo. “Pô, como você fez isso?” Aí o cara explicava e ia lá e aplicava também no seu programa.

Em vez de ir no shopping

Jason: Eu tinha alguns amigos que eram da mesma… se formaram com mais ou menos mesmo perfil do que eu, no curso de informática. O curso se chamava “Datacenter,” lá em Nova Iguaçu. O curso em que a gente tinha estudado, o panorama era interessante tecnologicamente porque era um grupo de jovens que tinham…

Yuri: Mais ou menos da mesma idade?

Jason: Mais ou menos da mesma idade. Eu devia ter 17 anos, 16, 17 anos,372 que ficavam hanging around, em vez de ir no shopping, no curso de informática. E aí os professores do curso de informática eram pessoas experientes, profissionais experientes, sabiam muita coisa, eram uns caras bons e aí a gente ia lá e ficava pegando macetes e dicas com eles. O pessoal que programava coisas de baixo nível, um cara sabia assembler outro sabia C++, o outro sabia C. C++ acho que naquela época era muito incipiente, não era muito conhecido ainda. E aí a gente tinha saído do BASIC.

Num lugar lá bem longe

Jason: A idéia da gente era construir aplicativos, nós queríamos fazer aplicativos porque era uma era em que os aplicativos eram poucos. Eram pocas coisas. Então, como nós entendíamos um pouco de programação nós achávamos que a gente tivesse condições de fazer um aplicativo daqueles e ficar ricos e famosos.

Jason: E a emoção ainda era maior ao ver que a gente conseguia fazer coisas que eram boas. Eu tinha um amigo, que chamava Rogério, na época, que ele… cada um tinha um perfil assim, e ele era o cara que era “fissurado” por editores de texto. Ele queria fazer um editor de texto porque estava frustrado com o editor de texto que existia naquela época chamado WordStar. E aí o WordStar, ele tinha uns defeitos que eram óbvios, que eram coisas, é… de decisões de projeto que tiveram ao fazer o software que não era um, é… que estavam se tornando inaceitáveis naquele mundo ali alguns anos depois, né? Era um software grande, que já tava no mercado, não ia poder sair trocando. Aí ele começou a construir um editor de texto que começou a ter funcionalidades melhores do que a do WordStar, um garoto lá de 16 anos, enfurnado num lugar lá bem longe. E isso era legal, esse prazer era…

Yuri: Longe onde?

Jason: Nova Iguaçu, longe com relação… até longe com relação a metrópole mais próxima, que era o Rio de Janeiro e longe com relação ao lugar que se fazia software comercial, que é lá nos Estados Unidos, lá no Silicon Valley e tal. Então, numa cidade periférica de um país de Terceiro Mundo, o cara foi lá e conseguia fazer um software, que era, que comparando o software comercial, você considerava “Esse software é bom.” Esse potencial motivava muito a gente de estudar, de aprender as coisas.

Interceptar no relógio a parada

Jason: Esse grupo de pessoas trocava figurinhas né? A gente dizia “Mas você conseguiu fazer isso como?” “Ah, eu descobri que na interrupção tal do DOS [pronounces “De-Oh-Ese”] você pode botar um negocinho e o cursor passa a notificar cada vez que tá… você pode interceptar no relógio a parada e você consegue pegar as teclas do cara e aí você consegue passar um software por cima do outro e tal.” Umas decisões legais.

Tinha ficado rico

Jason: Eu lembro que na época eu era um cara que gostava de fazer gráficos, eu queria uma coisa que pudesse permitir que você rodasse vários programas ao mesmo tempo em janelas, um por cima do outro, assim. E aí pô, eu queria fazer isso de forma gráfica, na tela do DOS, mas era muito lento, muito ruim, eu queria ficar tentando soluções melhores, colocar buffers de vídeo mais espertos, copiar os dados mais rapidamente. Então, cheguei à conclusão que pra fazer isso eu ia ser obrigado a usar o disco e aí ia ficar muito lento e considerei inviável, desisti disso. Aí comecei a perseguir outras coisas. Fiquei muito indignado quando depois surgiu o Windows, alguns anos depois surgiu, justamente, usando o disco que era a idéia que eu tinha descartado como inviável, aí eu pensei “Sacanagem, se eu tivesse perseguido isso, tinha ficado rico.” [Laughs.] Ou não, né? [Long pause.]

Bem thorough

Jason: A informação era difícil de obter, a gente tinha que mesmo explorar os softwares, por isso era muito lento, né, o desenvolvimento dos nossos horizontes né; a gente… Em compensação ele era bem thorough, bem minucioso, a gente conseguia coisas que às vezes espantavam os professores. “Nossa, mas você conseguiu isso?” “É, tive que esquadrinhar todas as interrupções ali e descobri que essa faz isso, essa faz assim; tive que dar uma solução pra poder contornar o negócio que eu não conseguia fazer”. E aí acontecia…

O Jason que não morre

Jason: Eu estudei informática no curso lá e terminei o 1º, terminei o 1º grau em 89 eu acho. Aí eu já programava em BASIC, dBase, Clipper, Pascal, um monte de linguagens. Aí eu resolvi fazer o 2º grau técnico de Informática, né? O 2º grau foi peace of cake, assim. Passei (…) completo, porque eu já entendia de tudo que estavam dando ali, por causa do meu contato com as coisas. O meu 2º grau era dividido em três anos: o primeiro ano era básico, estudava todas as matérias, biologia, física, química e só uma introdução à informática; a partir do segundo ano é que começavam as matérias técnicas mesmo, programação, algoritmos, essas coisas todas. E aí no primeiro ano eu identifiquei uma necessidade de automação, de desenvolvimento de sistema pra escola, e aí comecei a desenvolver o software para controle de alunos, para o curso deles né? Isso até era uma coisa engraçada porque eles tinham um aluno do primeiro ano, que nem era técnico, desenvolvendo um sistema bastante avançado já né; o que acabou me dando muito acesso às pessoas, aos professores, aos laboratórios, eu tinha acesso aos laboratórios pra fazer, e me rendeu até um apelido na época, que é o apelido que eu uso profissionalmente até hoje, que me chamam de “Jason,” porque acho que naquela época tinha aquele filme “Sexta-feira 13,” o Jason com uma máscara e tal e ele não morria de jeito nenhum, você dava tiro nele e aí tinha… e eu era uma pessoa extremamente obsessiva com programação, então, eu ia lá e programava, passava os dias… eu estudava pela manhã nesse ano, acho que foi 89 ou 90, acho que 1989, eu estudava pela manhã, de 7hs da manhã ao meio dia e durante a tarde o laboratório de informática tava liberado pra mim, porque ele tinha acesso restrito, nem todo mundo podia usar os computadores, mas eu tinha acesso porque eu fazia um sistema pra escola. Aí, às vezes, eu emendava e começava a usar os computadores meio-dia e pouco, assim que abria o laboratório, e continuava usando até dez horas da noite, quando me chutavam de lá pra fora. […] Eu lembro que uma vez eu fiz uma prova de inglês pela manhã, eu também era bom de inglês, então fazia a prova bem rápido, eu fiz uma prova de inglês e saí oito horas da manhã da prova e aí os laboratórios só abriam uma hora da tarde. E aí eu: “Pô, como é que eu vou fazer, pra fazer hora até a hora de começar a programar né?” Aí fui como quem não quer nada, por desencargo de consciência, fui lá no laboratório e por acaso tava aberto, estavam dando manutenção nos computadores, eu “Legal, então eu vou entrar” Entrei e fiquei lá sentado programando e as turmas entravam e saiam, entravam e saiam, e eu continuava lá fiquei lá de oito da manhã até às dez da noite sem levantar da cadeira. É, como 2º grau é uma coisa que a fofoca é uma coisa natural, no dia seguinte a escola inteira já sabia do garoto que tinha ficado de oito horas da manhã às dez da noite no computador. Então, me passaram a me chamar, ao longo da semana, de vários apelidos: “zumbi,” “vampiro,” “morto vivo,” “sem funções vitais.” No final o que pegou foi o “Jason”. Aí todo mundo: “Ah, o Jason que não morre, que tá ali no computador, como sempre, lá.”

Subestimei as cadeiras

Jason: Só fiz seis meses dessa faculdade lá. […] Naquela época, eu era um cara extremamente técnico e muito pouco… eu era extremamente “um escovador de bit” que a gente chama, né? Um cara de muito baixo nível. […] E aí eu subestimava conhecimentos como análise de alto nível. Até bancos de dados mesmo eu achava uma coisa muito trivial, “Pô, é um negócio que você pega o dado, bota lá e depois pega lá e tira, e depois bota de novo e tira, bota, tira. Não tem nada de especial nisso.” Então eu subestimei um pouco as cadeiras que eram disso, eu meio que analisei o currículo sob a ótica das tecnologias. Pensei assim: “Pô, não vão me ensinar tecnologia nova nenhuma nesse lugar, então não vou ficar aqui não.” E aí eu fui pra casa estudar mais coisa, né. E aí passei a fazer meio que um mosaico de diversas coisa, estudei essa coisa gráfica, estudei coisas de linguagem de programação, aprendi C++ nessa época, entre 91 e 94, e outras coisas. […] Agora sim tinham livros decentes, né. Já era 91, 92, eu já podia entrar numa livraria, eles inauguraram, até aqui no Centro, era o playground da gente, Livraria Ciência Moderna aqui no edifício Avenida Central…

Um mercado com uma cara diferente

Jason: Na Petrobras foi quando eu meio que comecei a sentir a crise do meu super tecnicismo. Porque eu chegava lá e descobria que o mundo tinha mudado um pouco, as coisas eram mais fáceis de fazer no mundo do 1994, 1995, meio dos anos 90. A tecnologia já estava um pouco facilitada, o acesso a informação já tava facilitado e eu tinha uma bagagem técnica de “escovação de bit” muito grande mas ela já não era tão valiosa como era cinco ou seis anos antes, no final do anos 80. Então, me vi num mercado que precisava de aplicações de bancos de dados, basicamente, sistemas de informação, e eu não era uma pessoa com uma bagagem teórica grande sobre isso, né? […] Eu vinha de um mundo de tecnologia de software básico, de coisas de baixo nível e manipulação de escovação de bit, e, de repente, eu encontrei o pessoal que vinha de sistemas lá da antiga de informação, de COBOL, pessoal de bancos de dados; e a gente meio que se encontrou no afunilamento do mercado, né. Na verdade não foi exatamente um afunilamento, o mercado foi expandido. […] No começo dos anos 90, lentamente, os primeiros frutos do fim da reserva de mercado começaram a nascer e a informática abriu, aflorou, as empresas surgiram e o mercado foi crescendo, né? E em 94 ele já estava com outro formato, já era um mercado com uma cara diferente. Essa época tinha uma demanda de sistemas muito maior, então, não foi exatamente um afunilamento, foi uma explosão.

Fiquei a fim de estudar

Jason: De repente, o mercado de sistemas de informação era grande e dava pra trabalhar, e dava pra viver disso bem e tinha um profissional disponível pra trabalhar com isso, isso meio que transformou o cenário, né. Eu cheguei lá, migrando, eu encontrei os caras que estavam vindo do COBOL e tal, né. E aí foi assim: “Pô.” Eu tinha uma desvantagem com relação aos caras porque eu não tinha bagagem teórica de modelagem de dados, de análise de requisitos, era uma coisa que nem se falava muito naquela época, né? Então, pô, fiquei a fim de estudar e tal, fui estudar na universidade Estácio de Sá, aqui no Centro.

Vende ele pra mim

Jason: Então, ela [Petrobras] tem todo aquele ciclo de concursos públicos pra pegar funcionários e tal, aí tem os funcionários da Petrobras; mas quando ela precisa de uma coisa feita, ela contrata o externo, uma pessoa externa, que fica lá trabalhando com um contrato temporário; só que a lei não permite que você faça isso muito tempo, as leis trabalhistas do Brasil são pesadíssimas. Então, o que ela faz? Ela contrata uma empresa externa, terceirizada e obriga essa empresa: “Contrata esse cara aqui e vende ele pra mim.” Aí a empresa contrata o cara, ele faz o contrato, depois ele é obrigado a abrir licitação, né? Abre a licitação, aí uma outra empresa ganha e “Demite essa cara aí. Você — contrata esse cara aqui.” Aí o cara é contratado, participa de umas três empresas mas, na verdade, ele trabalha pra Petrobras. Eles queriam a mim e abriam concorrência pras empresas me contratarem. [Laugh.] Eu e assim milhares de pessoas que trabalhavam na Petrobras, pra agilizar os processos, fazer as coisas funcionarem. Porque se dependesse de abrir concurso pra entrar funcionário, aí demora, um ano, dois ano aí têm as falcatruas, o que a gente chama de “peixadas” né, que são os políticos que indicam quem é que vai entrar ou não, fraudam os concursos, é uma série de corrupções e tal.

Naturalmente averso a burocracia

Jason: Como profissional de informática eu já sou naturalmente averso à burocracia. Quando ela atinge a mim eu fico possesso. Eu fiquei zangado e saí de lá, resolvi ir embora. E aí voltei a trabalhar por conta própria.

Negocio muito bom, feito no Brasil

Jason: Não sei se eles estão aqui no Rio, não sei se ainda tão, mas originalmente foi um pessoal do Rio de Janeiro. E aí esse pessoal do WABA… WABA é famoso, eu descobri que eles são usados por aí fora, né. É uma máquina virtual pequena que funciona em Palm e outros dispositivos móveis. O WABA é free, mas acho que o SuperWABA não. E aí eu peguei o WABA olhei e falei assim “Pô, que legal, né.” E por ter pego um trabalho de um cara do Rio de Janeiro isso explodiu na minha mente. E eu: “Caramba, tem o pessoal da PUC!” Eu já tinha ouvido falar do Lua antes, né? Quando eu tava pesquisando na época dos jogos, eu tava pesquisando alguma coisa e descobri que tinha um jogo que usava linguagem Lua e descobri que linguagem Lua era feita no Rio de Janeiro, foi feita pela PUC-Rio. Eu falei assim “Pô, pra que que eu vou usar um negócio super sofisticado como o Java se tem uma parada que é o Lua que é feito pra núcleo de mecanismo de jogo e deve ser super eficiente.” A parada… O Java é um bocado mais versátil, né, sofisticado. Então ele é mais lento, tem um monte de outros requisitos. Assim, pô: o Lua é super enxuto, deve ser perfeito pras minhas necessidades. E ainda é um produto nacional, é um negocio que… Assim: não basta… não é só por ser nacional, é um produto bom. Negocio muito bom, feito no Brasil. Então, pô, quero pelo menos ver isso e entender isso melhor.”

Ver que eles são gente

Jason: Olha eu acho até que eu me interessaria de ver que eles são gente, né? São pessoas que eu passei a admirar pra caramba, de ver o trabalho maravilhoso que os caras fizeram. Mas fico… é aquela história de você encontrar lá um músico maravilhoso, que faz aquelas músicas maravilhosas, você vai lá encontrar ele pessoalmente. Porra… [Laughs.] Ele pode tocar pra você, aí é legal, sabe. Mas pô, vai lá conversar com ele e tal é diferente, né. Trocar uma idéia sobre música e tal, você tem que entender de música tanto quanto ele pra você ir lá e poder aproveitar aquilo.

Vou ficar amarradão

Jason: Vou chegar lá e vou ficar amarradão querendo ver o que eles estão fazendo e se funciona, algum tipo de ajuda que eu possa dar e tal. Então, quando eu descobri que os caras eram da PUC, que eu comecei a usar o negocio e os caras eram da PUC, eu “Pô… É isso aí. Acho que eu vou lá, ver qual é.” Mas eu não ia saber onde encontrar os caras. Acho que se eu visse algum deles oferecendo um curso, eu ia fazer imediatamente, correndo, mas eu não ia lá bater na porta pra descobrir onde é que está o cara.

Jason, July 2007

Me tornar pesquisador

Jason: O fato de eu estar trabalhando com Lua agora, e vendo todo esse potencial também lá, faz com que eu queira me enfiar um pouco nessa interseção que eu acho legal pra caramba. Agora, é uma motivação fraca, quando você olha pelo lado econômico, né? Então, quer dizer, nem só de economia se vive, mas modernamente falando, é um fator que não pode ser ignorado. Então, eu tenho muito interesse de me tornar pesquisador, e acho que se tenho ainda alguma vocação que eu ainda não persegui é essa. E acho que estar participando desse projeto pode contar ponto, de alguma maneira, para isso. Nem que seja só pelo networking, só por estar conhecendo as pessoas e estar contribuindo, adentrando uma comunidade que eu sempre quis adentrar e agora apareceu uma porta.

Está lá e vive

Jason: Com as pessoas da PUC, quer dizer, como eu conheci o Rodrigo, por exemplo, que é uma pessoa que me mostra que é viável trabalhar assim. Porque era uma dúvida que sempre me acometeu, sabe. Eu pensando: “Pô, beleza, eu sempre quis fazer isso, mas como é que eu vou ganhar a vida?” Se eu ficar fazendo essas coisas altamente experimentais e avançadas que não têm, não são mainstream comercial? Como eu vou viver fora do Java e do .Net?”

Yuri: E como você vai viver? O que ele te mostrou?

Jason: Ele mostrou… Bom, ele está lá e vive, né? [Laughs.]

Michel, July 2007

Pra manter interoperabilidade

Michel: Porque o Java, o Java é a linguagem que praticamente todos os sistemas de TV, sistemas de TV digital, eles oferecem uma API Java. Por ser uma linguagem a princípio independente de plataforma, que favorece interoperabilidade. Então Java tem sido uma API procedural utilizada nos middlewares de TV digital. Então, o Brasil pra manter essa compatibilidade, optou por ter também no seu middleware o API Java. E essa experiência em … quais seriam as melhores APIs, como é que seria essa… a integração disso num set-top, isso o grupo de pesquisa da UFPB, a Universidade Federal da Paraíba, eles já tem, tão há muito tempo, já há mais de cinco anos, seis anos já bem focados nesse assunto. Então na época em… que foi mais ou menos em 2003, 2004, quando o governo brasileiro decidiu investir num projeto pra definir um sistema brasileiro e convocou as universidades e as… Então nessa hora os grupos de pesquisa daqui da PUC e o grupo de pesquisa da UFPB, eles trabalharam juntos nessa questão do middleware, um mais voltado pra parte procedural e o outro mais voltado pra declarativa.

Usado por essa indústria de games

Michel: Bom, Lua entra primeiro pela a facilidade que a gente tinha de trabalhar com a comunidade de Lua, que também é uma linguagem desenvolvida aqui na universidade. Segundo, porque a gente começou a ver que a gente precisava pra terminal, pra set-top box, de algo que fosse bem leve, que fosse eficiente, que não ocupasse muita memória. E a gente começou a perceber nas comparações feitas por terceiros, sites que fazem comparações de linguagens script, que Lua tem grande aceitação por essas características, por ser um interpretador muito leve, muito eficiente. Um ponto também que chama muito pra… TV digital o pessoal logo começa a pensar em entretenimento, aplicações, jogos, essas coisas. São aplicativos interessantes pra você começar a pensar nesse, rodar nesse receptor, Lua vem sendo muito usado por essa indústria de games, então de novo tinha tudo a ver. Então foi por essa soma de características.

O ganho de não botar Lua

Michel: O Java ele entra, ele tem o lado mais pesado da máquina virtual. Mas se você não põe o Java, você já limita a questão das aplicações. As emissoras, elas ficam preocupadas com a questão da importação de programas também, né? Da compatibilidade. Então se você tira o Java do sistema, você já exclui uma quantidade de aplicações interativas. E Lua e uma coisa que não pesa. Então você botar Lua ou não botar Lua… O ganho de não botar Lua não existe praticamente. Então já que tem uma coisa que pode funcionar legal, que já está integrada com NCL, não é prejuizo você acrescentar. É muito leve, 50K. Com menos de 100K você bota interpretador Lua. Já tem o player, já tem tudo integrado com a linguagem, com o NCL. Então fica como mais uma opção.

Luciano, July 2007

O único livro em Inglês

Luciano: O único livro em Inglês que eu li foi de Lua. É, único. Yuri: Leu mesmo, do inicio até o final? Luciano: Uhu. Yuri: E entendeu? Luciano: [Laughs.] Yuri: Levou tempo? Luciano: Muito, muito tempo. Yuri: Mas quando já tinha lido um livro deve ser mais fácil ler outro, né? Luciano: É, mas não arisco mais. Demora muito!

Jogos RPG

Luciano: Jogos, jogos RPG. Conhece? Jogava muito — jogos RPG. Os jogos RPG me deram o minimo, e aí… Por exemplo para comprar coisas, eu ia atribuindo […] a palavra “comprar”, e a palavra “vender,” entendeu? […] Se tem que abrir aquela porta, é “abrir a porta.” Atribuir as palavras “abrir a porta.” [Pause.] É… é “buy”, né?373

Fácil me perder

Luciano: Pra duvidas — qualquer coisa. Entendeu? Se tiver uma duvida… Agora lá: [unclear] resolução de meu monitor [unclear], sei lá. Vou colocar no Google em inglês. […] Mas em termos de aprendizado, quero um tutorial sobre [unclear], aí vou botar em português. […] Com inglês é muito mais fácil me perder, entendeu, uma palavra vai mudar completamente tudo. Eu não garanto ainda.

Mauricio, July 2007

Como era bem nerd

Mauricio: E como era bem nerd, eu passava a maior parte de tempo no laboratório de informática.

Yuri: “Bem nerd” significa que?

Mauricio: Geek. Eu gostava muito disso. Não era pessoa muito social.

Destruir mouse pra fazer o cabo

Mauricio: Ele [o professor] entrava, dava uma aula, liberava tudo mundo e a turma ia jogar futebol. A turma toda saía e a gente ficava lá no laboratorio. É que saiu Doom, né, então assim. A grande onda da gente era pegar, destruir mouse pra fazer o cabo no modem. Jogar Doom contra…

Yuri: Explica…

Mauricio: Cabo de… no modem… Na verdade cabo serial, pra conectar computadores. Pra poder se comunicar. Não tinha rede naquela epoca. Ou até tinha mas não funcionava lá. […] O mouse tinha um conector certo — seriál. […] Era mais barato pegar um mouse, quebrar e fazer. Chegou um ponto quando a gente tinha tanta prática de fazer isso. A gente arrancava o mouse [picks up an imaginary mouse, rips off its cord and removes the isolation with teeth], juntava os fios, colocava… Demorava menos de dez minutos pra fazer um cabo.

Ricardo, July 2007

Que bobagem!

Ricardo: Eu lembro que a gente fez um projeto em C e ela incinou uma linguagem nova, tinha poucos anos, inventado aqui na PUC e chamada Lua. E eu olhei praquilo e foi assim: “Ahhh, uma linguagem inventado aqui? Que bobagem! Não vou aprender esse negocio. Nunca vou usar esse negócio na minha vida profissional. O que vou fazer com isso? E eu lembro que tinha duas partes da matéria que ela mandou. Uma parte era em C, uma parte era em Lua. E a menina que tava fazendo uma parte desse trabalho comigo… “Faz a parte em Lua porque não vou aprender esse negocio não, não quero saber de Lua, eu vou fazer a parte em C, que vai ser mais interessante porque vou usar.”

As coisas mudam

Ricardo: Eu sempre olhei pra esse negocio de Kepler e sempre achei muito interessante. O Rodrigo sempre passava, assim, pela PUC, e a gente ficava batendo papo, ele me contando como é que tava.

Yuri: Mas, interessante em que sentido?

Ricardo: [Long pause.] Aí você vê como é que as coisas mudam, né? A ideia de ser uma tecnologia nacional… [pause], bem estruturada [pause]. Uma proposta pra um framework mesmo, de desenvolvimento pra Internet. Pra competir, ou talvez o Rodrigo vai dizer que não é pra competir mas vamos dizer assim, com as tecnologias que existem por aí… Eu me interessei.

Prestigiando uma coisa que começou aqui

Yuri: A ideia de tecnologia nacional quer dizer que?

Ricardo: Oi?

Yuri: Você disse que uma parte que foi interessante foi essa ideia de tecnologia nacional.

Ricardo: Ah, é… [Pause.] Porque é que eu acho interessante? {text:bookmark-start} [Pause.] {text:bookmark-end} É difícil dizer. É… [Pause.] Eu não sei muito bem. Talvez um pouco de patriotismo mesmo também. De achar que a gente pode desenvolver tecnologia muito boa, de nível mundial, entendeu? Pra ser usado por pessoas de todos os cantos, e que funciona.

Yuri: A gente nesse caso quer dizer quem?

Ricardo: Eu posso dizer “a gente Brasileiros” ou posso dizer “nós,” “PUC,” “Nas Nuvens,” “comunidade open source.” Não sei, não sei direito. É isso.

Yuri: Mas você tinha qual em mente?

Ricardo: Eu acho que [pause]… essa coisa de ser tecnologia nacional, ou seja desenvolvida, mesmo que inicialmente, por pessoas daqui, do Brasil. Eu acho que isso me empolgava. Mesmo que, “Ok, tem participação de gente do mundo inteiro.” Melhor ainda! Cê tá entendendo? É gente do mundo inteiro prestigiando uma coisa que começou aqui. [Long pause.]

Rodrigo, October 2007

1981

(07:48:03 PM) RMiranda: (EC) I started with this computer thing around 1981

(07:48:22 PM) RMiranda: but I was doing Texas calculators before, so I already new something about programming

(07:48:36 PM) YuriOnLaptop: you said you bought a computer in college, right?

(07:48:46 PM) YuriOnLaptop: where did you use one before?

(07:48:51 PM) RMiranda: at the computer store

(07:48:59 PM) YuriOnLaptop: ?

(07:49:20 PM) RMiranda: there was one (really one) computer store in Rio at the time

(07:49:41 PM) RMiranda: so we used to skip classes at school and go there

(07:49:44 PM) YuriOnLaptop: but how could you use a computer there?

(07:50:05 PM) RMiranda: stading in front of it

(07:50:06 PM) RMiranda: :)

(07:50:13 PM) RMiranda: nobody went there

(07:50:16 PM) YuriOnLaptop: but for how long would they let you use it?

(07:50:23 PM) RMiranda: and it was a TImex sinclair zx81

(07:50:27 PM) RMiranda: hours

(07:50:33 PM) RMiranda: like 4-6 a day

(07:50:41 PM) RMiranda: but we were sharing it

(07:50:46 PM) RMiranda: like for 4 people

(07:50:50 PM) YuriOnLaptop: they didn’t kick you out?

(07:51:00 PM) RMiranda: no, they were amused by those kids

(07:51:08 PM) RMiranda: everybody had that IBM look

(07:51:28 PM) RMiranda: and they wanted to show to CEOs how that TRS80 really would revolutionize their companies

(07:51:44 PM) RMiranda: so I guess pointing at us and saying, see? even kids can use these new computers

(07:51:50 PM) RMiranda: that could even help them

(07:51:51 PM) RMiranda: hehe

(07:52:09 PM) YuriOnLaptop: and how did you get interested in that?

(07:53:31 PM) RMiranda: A guy in my classroom was into electronics and he was trying to learn how to program in assembler. when he heard that the other nerd used to program a TI58 he assumed I would be able to learn assembler too

(07:53:41 PM) RMiranda: so he gave me the Z80 ref man

(07:55:04 PM) YuriOnLaptop: and what did you say?

(07:55:17 PM) RMiranda: about the manual? I simpy loved it

(07:55:25 PM) YuriOnLaptop: how so?

(07:55:33 PM) RMiranda: it was so easier than the TI! :)

(07:55:59 PM) YuriOnLaptop: I had that feeling too when I learned assembly in college.

(07:56:08 PM) YuriOnLaptop: but that was in 98

(07:56:38 PM) YuriOnLaptop: but how did you get into programming TI58 in the first place?

(07:57:40 PM) RMiranda: I got one as a present from a cousin

(07:57:47 PM) RMiranda: that heard I was into electronics

(07:57:55 PM) RMiranda: and he used it no more

(07:58:48 PM) RMiranda: then I somehow upgraded that 58 for a 59, in order to enjoy the amazing world of persistent storage (magnetic cards!) :)

(07:59:06 PM) YuriOnLaptop: you were into electronics before that? in what way?

(07:59:18 PM) RMiranda: just as a hobby

(07:59:36 PM) RMiranda: but I was considering it as a profession

(07:59:44 PM) RMiranda: the initial plan was architecture

(07:59:50 PM) YuriOnLaptop: that was at what age?

(07:59:58 PM) RMiranda: 12

(08:00:24 PM) YuriOnLaptop: but what is electronics as a hobby? (I am the wrong generation, perhaps…)

(08:00:51 PM) RMiranda: small devices like sirens, led based dices, door locks, alarms, digital clocks, nothing too fancy

(08:00:57 PM) RMiranda: but at 12 this is amazing

(08:01:03 PM) YuriOnLaptop: and how did you get into that?

(08:01:11 PM) RMiranda: magazines in the newstand

(08:01:40 PM) RMiranda: oh, and a beginners course by mail

(08:01:44 PM) YuriOnLaptop: there are also magazines on doing makeup in the newstand – you didn’t get into that

(08:01:55 PM) RMiranda: if you say so

(08:01:58 PM) RMiranda: :):):)

(08:02:04 PM) YuriOnLaptop: there must have been other influences

(08:02:20 PM) RMiranda: well, people around me were nerdy too

(08:02:32 PM) RMiranda: so everybody discovered those things around the same age

Luiz Fernando, January 2009

O Brasil não acreditava

Luiz Fernando: A primeira dificuldade que a gente teve muito grande era que as pessoas não acreditavam que a gente tinha feito realmente uma coisa que era muito melhor do que tava sendo proposto lá fora. E foi muito interessante que o Brasil não acreditava de jeito nenhum e precisou pessoal aí fora acreditar e dizer isso primeiro, pra que depois o Brasil aceitasse.


Notes

372: In a later email exchange Jason says that and his friends were actually 14 to 15 at the time. The number 17 is an incorrect on-the-fly calculation based on the year in which he remembers those things occurring (1987-1989) and his year of birth.
373: Luciano’s “buy” in the end of the quote appears to refer to the discussion of buying/selling a few sentences earlier, rather than confusing the English words “buy” and “open.”